QUASE UM ENCONTRO COM PRESTES.

Por volta de 1985, era eu Juiz Auxiliar da Capital, quiçá numa das Varas Cíveis Centrais, no Fórum João Mendes. Devia ser por volta de 10 horas, e me encontrava em meu pequeno apartamento, no Bexiga, estudando processos, para proferir despachos e sentenças.

Fazia-me companhia um velho rádio que captava com alguma nitidez, a Rádio Eldorado AM, a qual estava sempre ligada, enquanto trabalhava. A transmissão era de um programa de entrevistas, sendo entrevistado Luiz Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança.

Passei a prestar atenção na entrevista, sendo que os estúdios da emissora ficavam a uns 300 metros do apartamento. Fiquei tentado a ir ver o lendário Cavaleiro da Esperança.

Acabei não indo, preocupado com meu trabalho, que não chegasse a tempo, e que minha presença fosse divulgada. Os tempos ainda eram de algum preconceito àquela lenda viva, e à doutrina Comunista que Prestes abraçara em 1930, quando cooptado durante seu exílio em Buenos Aires. Supus, talvez equivocada e exageradamente, que não ficasse bem a um Juiz de Direito aproximar-se daquela lendária figura, cuja ideologia nunca foi unanimidade nacional.

O fato é que não fui à Rádio Eldorado, ainda que possivelmente não pudesse ou não me fosse dado conversar com o ilustre entrevistado.

Todavia, passei a ouvi-lo, agora atentamente, deixando desligada minha máquina de escrever IBM Elétrica (veja-se que houve tempo em que não se usava computador, ao menos para edição de texto).

Do que me lembro, disse Prestes que a célebre Coluna, comandada com Miguel Costa, nos diversos encontros com tropas oficiais (do exército e estaduais), e de jagunços, jamais sofreu derrota. Esclareceu que os comandantes e outros integrantes da Coluna, sendo militares, agiam como militares. Assim, cada avanço era precedido de levantamento do terreno a ser percorrido, com elaboração de mapas muito bem estudados pelos comandantes. Ademais, utilizava-se a técnica de guerrilha, de atacar e recuar. Recuo que também se dava quando se concluía que o adversário estava em maior número ou melhor armado.

Outra parte da entrevista, que me lembro, dizia respeito ao comportamento da tropa: nas muitas vilas e cidades e em todo o percurso, o respeito às mulheres era absoluto. Um ou outro caso de estupro ou violência deveria ser e foi, punido com a morte do abusador.

A respeito da Coluna, de seus integrantes, de seus objetivos, percurso, etc., o que faz parte da História, de conhecimento público, ainda escreverei neste espaço.

Conquanto nunca tenha-me aproximado da doutrina comunista, dado que como católico e cristão (pela Graça de Deus), nunca comungaria com quem nega a existência de Deus, confesso que tenho admiração pelo homem e político Luiz Carlos Prestes. Mesmo defenestrado do Partidão, manteve suas convicções até o fim de seus  94 anos; ficou preso por vários anos entre 1935 e 1945; senador eleito à Constituinte de 1946 foi cassado com os 14 deputados eleitos pelo  Partido Comunista; recusou a anistia e recondução ao Exército com sua patente de Capitão oferecida pelo Ditador Vargas; não quis o comando militar que lhe foi oferecido pelos chefes da revolução de 1930; e teve a perda da primeira esposa, judia, deportada enquanto grávida de sua filha, e morta em campo de prisioneiros na Alemanha nazista.

Certamente Prestes deve ter praticado atos que mereçam ser desaprovados. Mas nem por isto desmerece a admiração, pelo que fez e sofreu.

 

(O Autor é Desembargador Aposentado (TJ/SP) e

Advogado militante nesta Comarca (OAB/SP 25.686).

E-mail: oliveiraprado@aasp.org.br

www.oliveirapradoadvogados.com.br

 

Publicado em 04/04/2019, Jornal Cidade, Página 02.

 

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