JUÍZO & VERGONHA NA CARA

Sempre que cumprimento meus filhos, sobrinhos, amigos e colaboradores, e todos com quem tenho liberdade para tanto, desejo-lhes juízo e vergonha na cara.

Aos que não sabem o porquê de tais votos, explico, remetendo-me ao que contara meu saudoso pai, cujos elevados padrões de moralidade acompanharam-no sempre.

Ocorre que o  velho Irineu soube, por volta de 1.960, que um colega de serviço, mais antigo e seu superior hierárquico, tinha uma segunda família.

Não se conteve. Foi ao colega para dizer-lhe que tal conduta incorreta não lhe  cabia, também por ser  Chefe de Trem de Classe Especial (quando qualquer cargo na Paulista era importante). E que o colega deveria tomar juízo.

Ao que este, amigo por toda a vida, respondeu-lhe que juízo ele tinha. Faltava-lhe, porém, vergonha na cara. Ou seja, sabia que estava errado (tinha juízo). Mas lhe faltava vergonha na cara, a fim de parar com o erro.

Esta historinha veio-me à lembrança quando li na  Veja nº 2.614, de 26.12.18, às páginas 100 e 101, oportuno artigo assinado pelo filósofo Roberto Romano, professor de ética e filosofia na Unicamp, sob o título “Procura-se: vergonha”, e como subtítulo/sinopse “A falta de verdade, o uso da mentira deslavada, o entusiasmo pelos favores, o desprezo pelo populacho, tudo isto faz do Brasil um arremedo trágico e ridículo da vida democrática”.

A comparação dos tristes dias de hoje, em que poucos são providos de vergonha na cara, é feita com a Grécia Antiga, o berço da democracia.

Ensina o Autor que, naqueles tempos, a vergonha, e também o respeito, media quem estava por merecer o reconhecimento político e social, sendo que a atividade política e, consequentemente, a democracia, vinculava-se sempre à verdade.

O que nos dá uma gigantesca inveja, diante do desamor ao verdadeiro, com que atuam nossos políticos e administradores (e as exceções, raras, só confirmam a regra).

E não precisamos voltar muito no tempo, nem olhar até Brasília. É só comparar as promessas eleitorais com o que se dá depois da posse.

Apenas um caso, da família presidencial, merece ser lembrado. Os depósitos bancários na conta do assessor parlamentar não podem ser explicados, mas o assessorado que, meses antes, abominava o foro privilegiado, não se peja em bater às portas do Supremo, rogando pelo privilégio. Esquecendo-se que, assim, fica por demais próximo do assessor que fez mágica,  para que seu dinheiro multiplicasse.

Mas – ainda é o filósofo que lembra – a falta de vergonha está  em nosso lado, gente do povo que somos: o que estaciona em local proibido, o que dirige na contra mão, o que desrespeita as filas, etc. Tudo como se certas pessoas fossem melhores do que as demais. Como era ao tempo da realeza.

E se os políticos vêm do povo, para nossa infelicidade, trazem a falta de vergonha daqueles a que me referi a cima.

Finalizo transcrevendo algumas importantes linhas do artigo citado: “… em Atenas uma forma de ser era fundamental: o indivíduo ganhava valor se manifestasse um sentimento de vergonha por atitudes incorretas. Faltar com o respeito aos idosos, às mulheres e crianças, aos mais fracos, era visto como uma indignidade sem tamanho. Quem não se ruborizasse por ter insultado algum concidadão deixava de ser um animal político e se transformava simplesmente em um animal.

Quiçá este septuagenário não viva para ver a moralidade ateniense triunfante nesta terra. Mas, creio em Deus,  chegaremos até lá.

O Autor é Desembargador Aposentado (TJ/SP) e

Advogado militante nesta Comarca (OAB/SP 25.686).

E-mail: oliveiraprado@aasp.org.br

WWW.oliveirapradoadvogados.com.br

 

Publicado em 24/01/2019, Jornal Cidade, Página 02.

Você pode gostar...

1 Resultado

  1. Analu disse:

    O Senhor Desembargador Dr. Irineu Prado é o HOMEM que deveria ser o PRESIDENTE do Brasil. Tal nobreza, cultura, ética.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *