VOTO SECRETO

Nos dias de hoje a noção do voto secreto, em especial nas eleições oficiais é bem claro: só o eleitor e sua consciência sabem do destino da sua escolha. Ainda mais com a modalidade da urna eletrônica.

Nem sempre foi assim, especialmente nos grotões e interiores do Brasil, há muito tempo, quero crer.

Penso que até 1.958, ou pouco antes, a cédula era individual. Ou seja, num papel de uma 5 por 10 centímetros, era impresso com o nome do candidato, e o cargo disputado.

Cabia ao eleitor, identificando-se perante a mesa coletora de votos, dirigir-se à majestática “Cabine Indevassável”, apor sua cédula/voto em envelope (nem sempre o oficial), e depositar o invólucro na urna, que à época, era um simples caixote de madeira.

O que vou contar já havia ouvido de meu falecido pai, mas há uns 20 anos, encontrei num dos volumes da “História do Folclore Político” de Sebastião Nery, e tem cenário nos tempos da República Velha, em que se lidava com quase democracia.

Conta–se que num dia de eleição, determinado Coronel do Interior Nordestino trouxe seus trabalhadores para a casa na Cidade (com certeza a pé, em carroça, ou na carroceria insegura de caminhão), recolheu-os no terreiro, mandou-lhes servir refrigerante e cachaça (não se sabe mais do geral), com um lanche, pão com mortadela, passando a discorrer sobre a finalidade eleitoral da reunião.

Comentava-se (inclusive no Sul do País) que era utilizado o voto sanduiche: envelope com recheio de cédulas.

E o Coronel facilitando o serviço de pagar os votos prometidos ao seu chefe político, entregou para cada eleitor o sanduiche eleitoral bem pronto: cédulas de dentro dos envelopes, sendo para cada um, o seu.

Completava dizendo que seriam levados até o local de votação, que deveriam assinar a lista, e colocar o envelope na urna. Assim teriam cumprido o dever cívico.

Mas naquele dia os tempos eram outros, Já havia algum eleitor um pouquinho mais esperto, ou mais ousado.

A reunião terminou com interessante diálogo.

Um trabalhador mais esperto perguntou: “Coronel, ainda que mal pergunte, em quem é que vamos votar? ”

Responde o Coronel: “Pois pergunta mal. Então tu não sabes que o voto é secreto?”

Não se sabe o que aconteceu com o trabalhador curioso.

Há quem diga que, no mínimo, na eleição seguinte, não mais votou naquela zona eleitoral.

 

O Autor é Desembargador Aposentado (TJ/SP) e

Advogado militante nesta Comarca (OAB/SP 25.686).

E-mail: oliveiraprado@aasp.org.br

WWW.oliveirapradoadvogados.com.br

 

Publicado em 10/01/2019, Jornal Cidade, Página 02.

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