MORO, MINISTRO

Ao vezo de comentar a vida alheia, o articulista não tem como escapar. Até porque se trata de personalidade pública e positivamente notória, como é o Juiz Sérgio Moro.

Não devo fugir do que VEJA nº 2.607, de 07.11.18 comenta: aceitando a nomeação como Ministro da Justiça, o ilustre Magistrado bem poderia estar dando um salto mortal (“… movimento mais temerário de sua carreira – equivalente a um salto triplo carpado.”).

Não há como se negar capacidade ao Juiz Federal paranaense, para assumir o cargo e encargos de Ministro da Justiça, como se anuncia. Menos ainda o de Ministro do Supremo Tribunal Federal.

Para assumir o Ministério da Justiça, como parece estar certo, Moro precisa desligar-se da Magistratura. Sabe-se que, para assumir cargo ministerial, ou símile, noutro Poder (no caso, executivo), só pode fazê-lo com aposentadoria, ou exoneração do ocupado na Magistratura (Poder Judiciário).

Pois bem. Moro é jovem para aposentar-se, e já se propaga que irá exonerar-se de suas importantíssimas funções de Magistrado Federal. É muito provável que será dos melhores ocupantes da pasta que lhe é destinada. Cultura geral e jurídica, e experiência de vida não lhe faltam.

Mas o cargo é político. Com toda certeza Moro precisará transigir e “negociar” com políticos para que seus planos ministeriais sejam implantados. E se defrontará com quem não esteja totalmente de acordo com suas iniciativas moralizantes e anticorrupção.

É bom não esquecer que muitas excelências estão sendo processados por crimes que são, foram, ou serão apurados sob o crivo da Operação Lava Jato, ou outra da mesma natureza.

Será que algum “amigo do rei” não se sentirá incomodado?  Por ventura não será este “amigo do rei” mais influente ou mais importante para o exercício do poder presidencial?

Em resumo: por este ou aquele motivo, pode dar-se- conflito de idéias, ou de interesses. Pode ser que se mostre mais conveniente prestigiar o amigo, e defenestrar o Ministro. Não será fato inédito, seja no quadro político mundial, e menos ainda brasileiro.

Pode ser que, ao surgir vaga para o Juiz Moro ser elevado à dignidade de integrar o Supremo Tribunal Federal, esteja ele ainda Ministro da Justiça.

Mas, e se não estiver Ministro da Justiça quando surgir a vaga (ou seja, sem a confiança presidencial), ou se esta for destinada a outro amigo, para quem o Presidente se sinta mais atraído?

De toda forma, Moro terá abandonado uma brilhante carreira de Juiz Federal (que muitos querem, mas que poucos chegam lá), para ficar na história como mais um ex-ministro da Justiça, a sumir nas brumas do tempo. Ou pior, como um Juiz Federal que abandonou a carreira pela política, chegando a lugar nenhum.

Atrevo-me a ponderar, com todo respeito, que Moro deve pensar melhor. Muito mais sensato seria aguardar a nomeação para o Supremo, coroando sua brilhante carreira, e onde, com profundos conhecimentos na distribuição da Justiça, faria belíssima figura.

Vamos ver o que o tempo – este senhor da razão – dirá.

 

O Autor é Desembargador Aposentado (TJ/SP) e

Advogado militante nesta Comarca (OAB/SP 25.686).

E-mail: oliveiraprado@aasp.org.br

WWW.oliveirapradoadvogados.com.br

 

Publicado em 15/11/2018, Jornal Cidade, Página 02.

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1 Resultado

  1. Sérgio Luiz Magri disse:

    Brilhante matéria!!! Parabéns Dr. Irineu!!!

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