SACAROSE NA RUBIÁCEA DE SUA EXCELÊNCIA

Numa manhã determinada, talvez em 1997, convidei meu vizinho de Gabinete (na verdade uma guarita ligeiramente ampliada) no Paulistão, o também Pinguim, e hoje  Desembargador Aposentado William Marinho de Faria, para tomarmos um café na copa, que ficava no andar de baixo.

Fica esclarecido que o prédio dos Gabinetes, então, ficava na Avenida Paulista, daí o apelido de Paulistão. E Pinguim é como, ainda hoje, são chamados os Desembargadores Substitutos.

No balcão da copa estava aguardando ser atendido a grande figura do Desembargador Debatin Cardoso (hoje já aposentado), com quem tive a honra de trabalhar na extinta Vara Distrital da Casa Verde, na Capital. Pronto o café que estava sendo coado, a simpática copeira nos indagou se desejávamos com açúcar ou adoçante artificial.

Comentei, então que em Piracicaba, onde já trabalhara por duas ocasiões, a simpática e santa Lina, já sabendo de minha preferência, sempre perguntava, ao me servir o café: “Com doçante, né doutor?”. Após alguns comentários sobre o idioma caipiracicabano (“arco ou tarco”, etc), o Desembargador Debatin Cardoso contou interessante caso ocorrido em sua sala, quando Juiz de Direito em Birigui, no momento em que  a copeira estava a adoçar seu café, e um conhecido advogado,  fazendo graça, disse para a moça, como que para embaraçá-la: “ Aí, Fulana, colocando sacarose na rubiácea de Sua Excelência, heim?!”

Mas a copeira não teve dúvida, e respondeu: “Doutor Fulano, eu não lhe dei essa liberdade. Sou mulher séria. E quer saber mais ? Vou contar para sua esposa.”

O que ela entendeu dos sinônimos algo forçados de açúcar e café, não se sabe. Nem se a senhora do advogado ficou sabendo do fato. Menos ainda se a mulher do causídico tomou alguma providência.

Demos boas risadas, e voltamos a nossos gabinetes, enfrentar os processos ou feitos a nosso cargo, embora o William,  com graça, sempre dissesse que nunca recebia feitos. Os processos que lhe chegavam estavam sempre “por fazer”.

Conforme já esclareci em artigo anterior (“Padre Árbitro”), Pingüim é o Juiz substituto de 2o. Grau, designado para substituir e auxiliar os Juízes nos extintos Tribunais de Alçada, ou Desembargadores no Tribunal de Justiça, como acontecia comigo. Em face do elevado número de processos, em S. Paulo o quadro de substitutos de segundo grau é de sessenta ou mais Magistrados, sendo de 360 o número de Desembargadores. O apelido “Pingüim” , segundo se comenta, decorre de duas versões. A primeira delas, que me parece mais verossímil, é a de que o animal Pingüim aparenta nunca se sentar, ou seja, não tem assento. E, substituir o colega do Tribunal de Alçada ou o Desembargador, significa assumir a cadeira que o substituído ocupa ou ocupava na Câmara de Julgamento. A segunda seria por conta de uma Toga diferente que era destinada aos substitutos, há muito tempo, com umas rendas no peito, que davam ao Magistrado a aparência daquele simpático animal.

Irineu Carlos de OLIVEIRA PRADO

Desembargador Aposentado (TJ/SP).

Advogado militante nesta Comarca.

e-mail: oliveiraprado@aasp.org.br

www.oliveirapradoadvogados.com.br

Publicado em 26/01/2017, Jornal Cidade, Página 02.

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